Sigmund Freud em 1891 ApresentaçãoDas afasias à histeria MARCO ANTONIO COUTINHO JORGE O livro de Sigmund Freud Sobre a concepção das afasias: um estudo crítico, que aqui publicamos,foi uma das primeiras obras a apreciar plenamente a profunda importância do problema da afasia,que se tornou o ponto de encontro de um conjunto de disciplinas científicas desde o final do séculoXIX. Depois dele, Bergson, Cassirer, Jakobson e Lacan trouxeram aportes fundamentais para agregaras dimensões teóricas da filosofia, da linguística e da psicologia ao seu estudo. Escrito em 1891, esteé o primeiro livro do criador da psicanálise e faz parte de sua obra neurológica, comumentedesignada como pré-psicanalítica. Mais essencialmente, ele é considerado, no interior dessa obra,como uma verdadeira ponte entre a neurologia e a psicanálise, e não é exagero falar da “importânciada obra de Freud sobre a afasia para o desenvolvimento da psicanálise”.1 O livro consiste na crítica radical e ao mesmo tempo revolucionária da doutrina de Wernicke-Lichtheim sobre a afasia, que na época era aceita quase universalmente. Em 1891, Freud estava preparado para essa empreitada difícil, pois conhecia bem a doutrina do encéfalo de Meynert, com sua ampla interpretação das configurações anatômicas, que serviu de base às teses de Wernicke-Lichtheim. Além disso, estava igualmente familiarizado com a doutrina clínica da afasia, de Charcot, e a pesquisa experimental sobre o cérebro, de Munk. Mas, como ele mesmo afirma no ensaio, amaior influência para a contestação da teoria localizacionista dos distúrbios de linguagem veio dasteses do neurologista inglês Hughlings Jackson. Se Wernicke avançou em seus trabalhos a noção deuma psicologia baseada na anatomia (doutrina anátomo-localizadora da afasia), concebendo umateoria que supõe uma íntima relação entre representações psíquicas e células nervosas, Freudintroduz a concepção de um aparelho de linguagem que repousa sobre um domínio cortical contínuo.É surpreendente que já nesta primeira obra Freud produza uma grande abertura para as questõesmais essenciais do que será construído posteriormente pelo arcabouço teórico psicanalítico. Asnoções de representação-palavra e aparelho de linguagem (este, uma antecipação da noçãopsicanalítica de aparelho psíquico, que introduzirá no capítulo VII da Interpretação dos sonhos),criadas e desenvolvidas por ele neste livro, são uma impressionante reflexão avant la lettre de temasque serão importantes objetos de investigação da psicanálise.Após seu retorno de Paris em 1886, onde frequentou o serviço de Charcot na Salpétrière e pôdese deparar com a primazia da experiência clínica, 2 Freud oscilará entre muitos domínios deinvestigação: a neurologia e a anatomia cerebral com Meynert, a histeria com Charcot, a sugestãocom Bernheim, o método catártico com Breuer, a neurastenia com Fliess. Campos de saber que eleesperava “poder conciliar, mas cuja heterogeneidade se cristalizaria – e viria a culminar – naoposição e em seguida no antagonismo entre a anatomia cerebral e a clínica da histeria”. 3 O livrosobre as afasias fornecerá a Freud condições para desvendar o enigma colocado por Charcot em suasexperimentações de hipnose com pacientes histéricas, constituindo ao mesmo tempo sua primeira tentativa de romper com o paradigma da neurologia.No fundo, essa tentativa representa uma escolha estratégica, pois revela que Freud não está defato interessado na anatomia do cérebro ou mesmo nas afasias, mas sim na compreensão domecanismo da paralisia histérica, tão presente no texto. Assim, como indica Scherrer, ao lermos estelivro, muitas aproximações podem ser feitas com a ótica dos escritos posteriores de Freud, emparticular seus Estudos sobre a histeria: à assimbolia do afásico corresponde a formaçãosintomática histérica; à parafasia correspondem os lapsos, os atos falhos e os chistes; à agnosia(termo, aliás, cunhado por Freud nesta obra e doravante universalmente utilizado em medicina)correspondem a alucinação, o delírio e a fantasia.4 Cronologicamente, o ensaio sobre as afasias ocupa um lugar bastante significativo na produçãoteórica freudiana: ele sucede ao verbete sobre a histeria, redigido para a enciclopédia médicaVillaret em 1888, 5 e ao ensaio sobre o tratamento psíquico, escrito em 1890, os quais revelam que Freud está se redirecionando para o estudo da psicogênese da histeria.No verbete, já surpreende que Freud utilize o termo “inconsciente” pelo menos três vezes.6 Noensaio de 1890, portanto apenas um ano antes de escrever Sobre a concepção das afasias, Freudcoloca em primeiríssimo plano a função da palavra no tratamento psicoterápico. Evidentemente, esseensaio precursor 7 pode ser lido em dupla com o das afasias: se este desconstrói, através de umacrítica (objetivo destacado no título) pormenorizada, a teoria localizacionista, aquele enfatiza adimensão simbólica inerente às perturbações mentais, tanto físicas quanto psíquicas. Se o tratamentopsíquico denota o tratamento realizado por medidas que atuam de imediato na mente, “de primeiraimportância entre tais medidas é o uso das palavras, [que] são o instrumento essencial do tratamentomental”.8Além disso, se em 1890 Freud já demonstra uma particular apreensão da relação íntima queexiste entre os fenômenos transferenciais e o poder da palavra, 9 em 1891 ele formula a ideia daexistência de um “aparelho de linguagem”, toca na questão dos lapsos de linguagem e se aproximaassim, de modo surpreendentemente precoce, das teses que irá desenvolver mais tarde sobre arelação entre as formações do inconsciente (sintomas, sonhos, atos falhos, chistes) e a estrutura dalinguagem, depois amplamente abordada por Lacan em seu ensino. Por isso Forrester tem razão emsalientar que “a obra de Freud sobre a afasia é o sine qua non da origem da teoria psicanalítica,como podemos distingui-la agora de outras teorias contemporâneas da neurose: uma teoria do poderdas palavras para a formação dos sintomas.”10 Como uma verdadeira ponte entre a neurologia e a psicanálise erigida por Freud no caminho desua descoberta, o livro das afasias é sucedido pelo artigo “Algumas considerações para um estudocomparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas”, de 1893. Nele, mencionando queaprendera com Charcot que para explicar a neurose histérica deveríamos nos concentrar napsicologia, Freud aplicaria a mesma lógica ao estudo das paralisias histéricas e afirmaria que ahistérica se comporta nas paralisias e nas outras manifestações como se a anatomia não existisse,formulação princeps que inaugura a concepção psicanalítica da histeria. COMO INTERLOCUTOR de Freud no presente volume, temos o filósofo e escritor brasileiro LuizAlfredo Garcia-Roza. Seu ensaio “As Afasias de 1891” acompanha o texto de Freud num comentárioprimoroso. Com erudição ímpar e clareza didática que são suas marcas registradas – dialogando sobretudo com a obra clássica de Jacques Nassif sobre o tema e referindo-se aos diversos autoresque constituem o alvo das críticas de Freud –, Garcia-Roza explora as diferentes dimensões teóricasimplicadas na elaboração freudiana, especialmente as noções de perturbação funcional, aparelho delinguagem, representação e associações entre representações. Sua leitura do esquema psicológico darepresentação-palavra apresentado por Freud o leva a assinalar que é a partir daí “que se abre ocaminho para a concepção do inconsciente”, fato muito relevante na medida em que situa as viasiniciais da descoberta do inconsciente numa relação estrita com a dimensão da linguagem. Baixar Livro.