Uma história dos perversos, de Elisabeth Roudinesco. Elisabeth Roudinesco A parte obscura de nós mesmos Uma história dos perversos Tradução: André Telles Revisão técnica: Marco Antonio Coutinho Jorge Programa de Pós-graduação em Psicanálise, Instituto de Psicologia/UerjTransmissão da Psicanálise diretor: Marco Antonio Coutinho JorgeIntrodução Embora as perversões sexuais constituam objeto de diversos estudos, dentre os quais dicionários especializados (de sexologia, de erotismo, de pornografia), não temos nenhuma história dos perversos. No que se refere à perversão enquanto denominação, estrutura e vocábulo, não foi estudada senão pelos psicanalistas. Inspirando-se em Georges Bataille, Michel Foucault planejara incluir em sua História da sexualidade um capítulo dedicado ao povo dos perversos, isto é, aos que são designados como tais pelas sociedades humanas, preocupadas em se distanciar de uma parte maldita de si mesmas. Inversamente simétricas às vidas exemplares dos homens ilustres, dizia ele em suma, as dos perversos são 1 inomináveis: infames, minúsculas, anônimas, miseráveis. Essas vidas paralelas e anormais, como sabemos, são inenarráveis, não tendo em geral outro eco senão o de sua condenação. E, quando adquirem uma reputação, é mediante o poder de uma criminalidade excepcional, julgada bestial, monstruosa, inumana, vista como extrínseca à própria humanidade do homem. Atesta isso a história incessantemente reinventada dos grandes criminosos perversos, de epítetos assustadores: Gilles de Rais (Barba Azul), George Chapman (Jack o Estripador), Erzebet Bathory (a Condessa de Sangue), Peter Kürten (o Vampiro de Düsseldorf). 2 Infindavelmente representados em romances, contos, filmes ou monografias, essas criaturas malditas suscitam, por seu estranho status — metade homens, metade animais — , um fascínio recorrente. Eis por que entraremos aqui no universo da perversão, bem como na vida paralela dos perversos, pela via da metamorfose e da animalidade, dois temas universais. Menos por intermédio dos poemas épicos que relatam a transformação dos homens em animais, fontes ou vegetais que pelo mergulho no pesadelo de uma infinita redefinição, que faz aparecer, em toda a sua crueldade, o que o homem procura travestir. Com 20 anos de intervalo, entre 1890 e 1914, 3 dois personagens da literatura européia, Dorian Gray e Gregor Samsa, investiram-se de suas formas, um para fazer cintilar contra a medicina mental a grandeza do desejo perverso no cerne de uma aristocracia caduca que preferia servir à arte em vez de ao poder, o outro para desmascarar a nudez abjeta no cerne da normalidade burguesa. Identificado com seu retrato, de uma beleza deslumbrante, Dorian Gray entrega-se secretamente ao vício e ao crime ao mesmo tempo em que leva uma vida opulenta. Embora conserve os traços de sua eterna juventude, asmetamorfoses de sua subjetividade pervertida gravam-se sobre a obra pintada, tais como emblemas de uma raça maldita. Quanto a Gregor Samsa, sua mutação radical em um inseto gigante revela, ao contrário, a grandeza de sua alma sedenta de ternura. Mas o ódio suscitado nos seus familiares pela visão de seu corpo imundo o levará a deixar-se apodrecer, e depois a ser expelido como um dejeto, após ter sido apedrejado pelo pai. Onde começa a perversão e quem são os perversos?4 Eis a pergunta a que este livro tenta responder, reunindo abordagens até então independentes, misturando a uma análise da noção de perversão não apenas retratos de perversos e uma exposição das grandes perversões sexuais, como também uma crítica das teorias e das práticas elaboradas, sobretudo a partir do século XIX, para pensar a perversão e designar os perversos. Acompanharemos o desenrolar dessa história através de cinco capítulos, ao longo dos quais serão abordados sucessivamente: a época medieval, com Gilles de Rais, os santos místicos, os flagelantes; o século XVIII, em torno da vida e da obra do marquês de Sade; o século XIX, o da medicina mental, com sua descrição das perversões sexuais e sua obsessão pela criança masturbadora, o homossexual e a mulher histérica; por fim, o século XX, em que se opera, com o nazismo — e sobretudo nas confissões de Rudolf Höss a respeito de Auschwitz — , a metamorfose mais abjeta possível da perversão, antes que esta termine por ser qualificada, em nossos dias, como um distúrbio de identidade, um estado de delinqüência, um desvio, sem que com isso cesse de se desdobrar em múltiplas facetas: zoofilia, pedofilia, terrorismo, transexualidade. Confundida com a perversidade, a perversão era vista antigamente — em especial da Idade Média ao fim da idade clássica5 — como uma forma 6 particular de abalar a ordem natural do mundo e converter os homens ao vício, tanto para desvirtuá-los e corrompê-los como para lhes evitar toda forma de confronto com a soberania do bem e da verdade. O ato de perverter supunha então a existência de uma autoridade divina. E aquele que se atribuía como missão arrastar a humanidade inteira para a autodestruição não tinha outro destino senão espreitar, no rosto da Lei por ele transgredida, o reflexo do desafio singular que ele lançara a Deus. Demoníaco, amaldiçoado, criminoso, devasso, torturador, lascivo, fraudador, charlatão, delituoso, o pervertedor era em primeiro lugar uma criatura dúbia, atormentada pela figura do Diabo, mas ao mesmo tempo habitada por um ideal do bem que ele não cessava de destruir a fim de oferecer a Deus, seu senhor e seu carrasco, o espetáculo de seu próprio corpo reduzido a um dejeto. Embora vivamos num mundo em que a ciência ocupou o lugar daautoridade divina, o corpo o da alma, e o desvio o do mal, a perversão é sempre, queiramos ou não, sinônimo de perversidade. E, sejam quais forem seus aspectos, ela aponta sempre, como antigamente mas por meio de novas metamorfoses, para uma espécie de negativo da liberdade: aniquilamento, desumanização, ódio, destruição, domínio, crueldade, gozo. Mas a perversão é também criatividade, superação de si, grandeza. Nesse sentido, pode ser entendida como o acesso à mais elevada das liberdades, uma vez que autoriza aquele que a encarna a ser simultaneamente carrasco e vítima, senhor e escravo, bárbaro e civilizado. O fascínio exercido sobre nós pela perversão deve-se precisamente a que ela pode ser ora sublime, ora abjeta. Sublime, ao se manifestar nos rebeldes de caráter prometéico, que se negam a se submeter à lei dos homens, ao preço de sua própria exclusão;7 abjeta, ao se tornar, como no exercício das ditaduras mais ferozes, a expressão soberana de uma fria destruição de todo laço genealógico. Seja gozo do mal ou paixão pelo soberano bem, a perversão é uma circunstância da espécie humana: o mundo animal está excluído dela, assim como do crime. Não somente é uma circunstância humana, presente em todas as culturas, como supõe a preexistência da fala, da linguagem, da arte, até mesmo de um discurso sobre a arte e sobre o sexo: “Imaginemos uma sociedade sem linguagem” , escreve Roland Barthes, “eis que um homem nela copula com uma mulher, a tergo, misturando à sua ação um pouco de pasta de trigo. Nesse nível, ”8 não há nenhuma perversão. A perversão não existe, em outras palavras, senão como uma extirpação do ser da ordem da natureza. E com isso, através da fala do sujeito, só faz imitar o reino natural de que foi extirpada a fim de melhor parodiá-lo. Eis efetivamente por que o discurso do perverso repousa sempre num maniqueísmo que parece excluir a parte de sombra à qual não obstante deve sua existência. Absoluto do bem ou loucura do mal, vício ou virtude, danação ou salvação: este é o universo fechado no qual o perverso circula deleitosamente, fascinado pela idéia de poder 9 libertar-se do tempo e da morte. Se nenhuma perversão é pensável sem a instauração de interditos fundamentais — religiosos ou profanos — que governem as sociedades, nenhuma prática sexual humana é possível sem o suporte de uma retórica. E é efetivamente porque a perversão é desejável, como o crime, o incesto e o excesso, que foi preciso designá-la não apenas como uma transgressão ou anomalia, mas também como um discurso noturno em que sempre se enunciaria, no ódio de si e na fascinação pela morte, a grande maldição do gozo ilimitado. Por esta razão — e é Freud o primeiro a avaliar seu alcance teórico — , ela está presente, decerto em diversos graus, em todas as formas de sexualidade humana.A perversão, portanto, é um fenômeno sexual, político, social, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas. E se todas as culturas partilham atitudes coerentes — proibição do incesto, delimitação da loucura, designação do monstruoso ou do anormal — , a perversão naturalmente tem seu lugar nessa combinatória. Porém, pelo seu status psíquico, que remete à essência de uma clivagem, ela é igualmente uma necessidade social. Ao mesmo tempo em que preserva a norma, assegura à espécie humana a subsistência de seus prazeres e transgressões. Que faríamos sem Sade, Mishima, Jean Genet, Pasolini, Hitchcock e muitos outros, que nos deram as obras mais refinadas possíveis? Que faríamos se não pudéssemos apontar como bodes expiatórios — isto é, perversos — aqueles que aceitam traduzir em estranhas atitudes as tendências inconfessáveis que nos habitam e que recalcamos? Sejam sublimes quando se voltam para a arte, a criação ou a mística, sejam abjetos quando se entregam às suas pulsões assassinas, os perversos são uma parte de nós mesmos, uma parte de nossa humanidade, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nossa própria negatividade, a parte obscura de nós mesmos. 1 Michel Foucault, História da sexualidade, vol.1: A vontade de saber (Paris, 1976), Rio de Janeiro, Graal, 2ª ed. 1979; Herculine Babin, dite Alexina B., Paris, Gallimard, col. Les Vies Parallèles, 1978, apresentado por Michel Foucault. Cf. também Pierre Michon, Vidas minúsculas (Paris, 1984), Rio de Janeiro, Estação Liberdade, 2004. 2 Modelo de M, o Vampiro de Düsseldorf, filme de Fritz Lang (1931), com Peter Lorre no papel do assassino, condenado à morte por um tribunal de ladrões tão criminosos quanto ele e que lembram os nazistas. 3 Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray (1890), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. Franz Kafk a, A metamorfose (1912), São Paulo, Companhia das Letras, 2000, trad. de Modesto Carone. 4 Forjado a partir do latim perversio, o substantivo “perversão” surge no francês entre 1308 e 1444 [no português, entre 1562 e 1575, com a mesma origem]. Quanto ao adjetivo “perverso” , é atestado em 1190, derivando de perversitas e perversus, particípio passado de pervertere: retornar, derrubar, inverter, mas também erodir, desorganizar, cometer extravagâncias. É, portanto, perverso — não há senão um adjetivo para diversos substantivos — aquele acometido de perversitas, isto é, de perversidade (ou perversão). Cf. O. Bloch e W. von Wartburg, Dictionnaire étymologique de la langue fran-çaise, Paris, PUF , 1964. E Émile Littré: “Transformação do bem em mal. A perversão dos costumes.Distúrbio, perturbação. Há perversão do apetite na pica, da visão na diplopia. ” , in Dictionnaire de la langue française, t.5, Paris, Gallimard-Hachette, 1966. “Pica” é um termo de medicina derivado de “pega” (a ave que come todo tipo de coisas). Designa uma perversão do paladar caracterizada pela aversão aos alimentos corriqueiros e pelo desejo de comer substâncias não-nutrientes: carvão, gesso, raízes. A diplopia é uma alteração da visão, uma má convergência, que faz com que vejamos dois objetos em lugar de um. 5 Quando será vista como uma doença pela psiquiatria. 6 Os famosos sete pecados capitais, definidos pelo catolicismo, são na realidade vícios, excessos, e portanto a expressão dessa desmedida passional e desse gozo do mal que caracterizam a perversão. São chamados capitais porque deles decorrem os outros, e, a cada um, é atribuída uma figura do Diabo: avareza (Mammon), ira (Satã), inveja (Leviatã), gula (Belzebu), luxúria (Asmodeu), orgulho (Lúcifer), preguiça (Belfegor). 7 Cf. Henri Rey -Flaud, Le démenti pervers, Paris, Aubier, 2002. 8 Roland Barthes, Sade, Fourier , Loyola (1971), Œuvres complètes III, Paris, Seuil, 2002, p.857 [ed. bras.: Sade, Fourier , Loyola, São Paulo, Martins Fontes, 2005]. 9 Cf. Catherine Millot, Gide, Genet, Mishima: inteligência da perversão (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2004. Baixar Livro.