Ensaio sobre as derivas identitárias", de Elisabeth Roudinesco. Mais clara a luz, mais sombria a escuridão… É impossível apreciar corretamente a luz semconhecer as trevas. JEAN-PAUL SARTRE Prefácio DEPOIS DE VINTE ANOS, os movimentos de emancipação parecem ter mudado de direção.Já não se perguntam como transformar o mundo para que ele seja melhor, masdedicam-se a proteger as populações daquilo que as ameaça: desigualdadescrescentes, invisibilidade social, miséria moral.As reivindicações hoje são, portanto, o inverso do que foram durante umséculo. Luta-se menos pelo progresso, cujas conquistas, às vezes, são atérejeitadas. As pessoas exibem seus sofrimentos, denunciam as ofensas, dãolivre curso a seus afetos, como marcadores identitários que exprimem umdesejo de visibilidade, seja para afirmar sua indignação, seja para seremreconhecidas. 1 As artes e as letras não escapam ao fenômeno, pois a literaturanunca esteve tão preocupada com o “vivido” quanto hoje. Nos romances,procura-se menos a reconstrução de uma realidade global do que uma formade contar-se a si mesmo sem distância crítica, usando a autoficção,2 talvez atéa abjeção, o que permite que o autor se desdobre infinitamente afirmando quetudo é verdade porque tudo é inventado. Daí a síndrome do camaleão:“Colocado sobre o verde, ele fica verde, deitado sobre o azul, fica azul,posto sobre um tecido escocês, ele fica louco, explode, morre”.Recentemente, Gérard Noiriel, historiador dos movimentos sociais,apontava que as salas dos arquivos eram frequentadas menos porhistoriadores profissionais que por “amadores da história”, que muitas vezesqueriam reconstituir sua árvore genealógica para “contar a história de suaaldeia, de seus ancestrais, de sua comunidade etc.”. 3 Essa autoafirmação de si— transformada em hipertrofia do eu — seria, portanto, o sinal distintivo deuma época em que cada um tenta ser si-mesmo como um rei, e não como umoutro.4 Mas, em contraponto, consolida-se uma outra maneira de submeter-seà mecânica identitária: o isolamento.Várias definições de identidade são possíveis. Quando se diz “Eu sou eu”,ou “Penso, logo sou”, ou “Quem sou eu se não sou quem habito”, ou ainda“Isso pensa lá onde eu não sou” ou “Eu é um outro”, 5 ou, por que não, “Eudependo de uma alteridade”, ou “Eu dependo dos outros para saber quemsou”, ou ainda “Je suis Charlie”, [1] afirma-se a existência de uma identidadeuniversal — consciente, inconsciente, habitada pela liberdade, dividida,sempre “outra” sendo si-mesma —, independente das contingências do corpobiológico ou do território de origem. Recusa-se então o pertencimento no sentido do enraizamento para sublinhar que a identidade antes de tudo émúltipla e inclui em si o estrangeiro.6 Mas se, ao contrário, assimila-se aidentidade a um pertencimento, então o sujeito é reduzido a uma ou váriasidentidades hierarquizadas e desaparece a ideia do “Eu sou eu, isso é tudo!”.7É esta segunda definição de identidade, amplamente inspirada por trabalhosde interpretação psicanalítica pós-freudiana, que será examinada nas páginasque se seguem.Num primeiro capítulo evocarei algumas formas modernas da designaçãoidentitária, 8 cada qual mais melancólica que a outra, que se traduzem numavontade de acabar com a alteridade, reduzindo o ser humano a umaexperiência específica. No segundo capítulo analisarei as variações queafetaram a noção de “gênero”. À custa de uma série de derivas, ela não émais usada como instrumento conceitual destinado a esclarecer umaabordagem emancipadora da história das mulheres — como foi até o ano2000 —, mas para consolidar, na vida social e política, uma ideologianormativa de pertencimento que chega a ponto de dissolver as fronteiras entreo sexo e o gênero.Nos três capítulos seguintes, tratarei das diferentes metamorfoses da ideiade “raça”. Depois de ter sido descartada do discurso da ciência e das humanidades em 1945, ela foi resgatada pelos estudos chamados “pós-coloniais”, subalternistas e “decoloniais”, que se inspiraram em algumas das grandes obras de pensadores da modernidade: Aimé Césaire, Edward Said,Frantz Fanon ou Jacques Derrida. Também neste terreno, instrumentosconceituais forjados com rara acuidade foram reinterpretados ao máximo afim de sustentar os ideais de um novo conformismo da norma, cujos traçospodem ser encontrados tanto em alguns adeptos do transgenerismo queerquanto nos Indígenas da República e outros movimentos engajados na buscade uma inencontrável política identitária.Em cada etapa deste ensaio, tratarei de analisar a abundância deneologismos que acompanham o “falar obscuro” de todas essas derivas.No último capítulo do livro, estudarei a maneira como a noção de“identidade nacional” voltou aos discursos dos polemistas da extrema direitafrancesa, possuídos pelo terror da “grande substituição” de si por umaalteridade demonizada: o imigrante, o muçulmano, Maio de 68, a barriga dealuguel, a Revolução Francesa etc. Esse discurso fetichiza um passadoimaginário propondo a execração do presente e valorizando, assim, o que osidentitários do lado oposto recusam: a identidade branca, masculina, viril, colonialista, ocidental etc. Para estes outros identitários — que, aliás, seautodenominam Identitários (com maiúscula) —, nossas aldeias de outrora,nossas escolas, nossas igrejas, nossos valores estariam ameaçados pelosnovos bárbaros: a Eurodisney, as mães de aluguel indianas, os que dão aosfilhos nomes impronunciáveis, as comunidades polígamas etc.Como conclusão, ao final dessa imersão nas trevas do pensamentoidentitário em que muitas vezes se misturam delírio, conspiração, rejeição dooutro, incitação ao assassinato e racialização das subjetividades, indicareialgumas pistas capazes de contribuir para nos tirar da desesperança, emdireção a um mundo possível, onde cada um adotaria o princípio do “Eu sou,isso é tudo” sem contestar a diversidade das comunidades humanas nemtransformar o universal ou a diferença em essência. “Nem muito perto, nemmuito longe”, dizia Claude Lévi-Strauss, afirmando que a uniformização domundo levava tanto à sua extinção quanto à fragmentação das culturas. É esseo significado profundo deste livro. Baixar livro.