Elisabeth Roudinesco Freud – mas por quetanto ódio? Tradução:André TellesRevisão técnica:Marco Antonio Coutinho JorgePrograma de Pós-graduação em Psicanálise,Instituto de Psicologia/Uerj Título original:Mais pourquoi tant de haine?Tradução autorizada da primeira edição francesa,publicada em 200 por Éditions du Seuil,de Paris, FrançaCopyright © Éditions du Seuil, 200, para os textos de Elisabeth Roudinescoe a organização do volume. Os textos do Capítulo 4 são de propriedadede seus respectivos autores.Copyright da edição brasileira © 20:Jorge Zahar Editor Ltda.rua Marquês de São Vicente 99 o andar | 2245-04 Rio de Janeiro, rj tel (2) 2529-4750 | fax (2) 2529-4787editora@zahar.com.br | www.zahar.com.brTodos os direitos reservados.A reprodução não autorizada desta publicação, no todoou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.60/98)Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication 20Carlos Drummond de Andrade de la Médiathèque de la Maison de France, a bénéficiédu soutien de l’ambassade de France au Brésil et de l’Institut Français.Este livro, publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação 20Carlos Drummond de Andrade da Mediateca da Maison de France, contoucom o apoio da Embaixada da França no Brasil e do Institut Français. Grafia atualizada respeitando o novoAcordo Ortográfico da Língua PortuguesaRevisão: Eduardo Farias, Joana MilliCapa: Sérgio Campante | Foto da capa: © Bettman/CORBIScip-Brasil. Catalogação na fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, rjRoudinesco, Elisabeth, 1954-R765f Freud – mas por que tanto ódio? / Elisabeth Roudinesco; traduçãoAndré Telles; revisão técnica Marco Antonio Coutinho Jorge. – Riode Janeiro: Zahar, 2011. (Transmissão da psicanálise) Tradução de: Mais pourquoi tant de haine?isbn 978-85-378-0718-71. Freud, Sigmund, 1856-1939. 2. Onfray, Michel, 1959-. 3. Ódio. 4.Psicanálise. I. Título. II. Série. Apresentação A história do ódio em relação a Freud é tão antiga quantoa da psicanálise. Ninguém toca impunemente no sexo, nosegredo da intimidade, nos assuntos de família, na pulsão demorte e na barbárie dos regimes que escravizam mulheres,homossexuais, marginais e anormais sem pagar um preçopor isso.E é justamente essa a razão pela qual o sucesso obtido pela psicanálise no mundo traduziu-se por ataques inces-santes: “ciência judaica” para os nazistas; “ciência burguesa” para os stalinistas; “ciência satânica” para os movimentos re-ligiosos radicais; “ciência degenerada” para a extrema-direita francesa; “falsa ciência” para os cientistas; “ciência fascista” forjada por um vienense ganancioso e perverso para os adep-tos da escola “revisionista” norte-americana. Essas ofensas nada têm a ver com a necessária crítica ao dogmatismo dosprofissionais do inconsciente e seus grupelhos, ou mesmo àprópria teoria freudiana, que em hipótese alguma deve servista como um corpus sagrado. Mas o ódio em estado puro e sem nenhum outro funda-mento senão a negação da realidade é coisa bem diferente. Convém lutar? Calar? A questão divide a comunidade cientí- 8 Freud – mas por que tanto ódio?fica, que muitas vezes se deixa seduzir pela fúria que suscita em seus detratores. Provavelmente porque seus represen-tantes, imersos em trabalhos, colóquios e reuniões entre especialistas, tornaram-se, erradamente, indiferentes àquiloque veem, com desdém, como literatura de sarjeta. De minha parte, sempre achei que jamais devemos si-lenciar quando o excesso de paixão e seu cortejo de danos ameaçam dificultar as condições do autêntico debate crítico.Ora, este é o caso, de uns vinte anos para cá, dessa série de panfletos estranhos escritos por autores cujos textos ressen-tidos não pertencem ao âmbito da tradição acadêmica e são incensados por uma mídia cada vez mais submissa à pressãodo mercado.Um panfleto delirante, o de Michel Onfray, vem maisuma vez incitar o ódio dirigido não apenas a Freud, tratadocomo impostor e ídolo a ser abatido, mas a todos os saberesconstituídos. Diante desse desvirtuamento que o poder das redes de in-ternautas me permitiu combater, e que as mídias mais sérias, em seu conjunto, não subscreveram, fiz questão de juntarà minha própria análise contribuições oriundas justamentedaqueles que se sentem interpelados, há anos, por aqueleque se apresenta como o detentor dos saberes recalcados ou ocultados pela República. Eles provêm de horizontes di-versos, e será muito difícil enxergar neles representantes do mundo “quartier latin”, expressão mais do que detestávelque serve de cabide a todas as formas de desvalorização dopensamento. Todos são professores – na universidade ou Apresentação 9no secundário – e quatro exercem a profissão fora de Paris:Caen, Lille, Marselha, Clermont-Ferrand. Agradeço-lhes porme haverem confiado suas contribuições.De minha parte, e levando em conta a importância que ganhou na França o rumor de um Freud incestuoso, admi-rador de Hitler e Mussolini, fiz questão de insistir na gênese deste episódio escuso: como se forjou a lenda de um Freud violentando a cunhada para estimular em seguida a perse-guição de seu próprio povo justamente no momento em que seus livros eram queimados pelos nazistas?Este dossiê dá sequência, de certa forma, ao que publiqueiem 2005 sob o título Pourquoi tant de haine? Anatomie du “Livre noir de la psychanalyse” (Navarin),1 com Pierre Delion, Ro-land Gori, Jack Ralite e Jean-Pierre Sueur. Visa, fundamen-talmente, aprofundar a compreensão das razões pelas quais a obra freudiana continua a suscitar tais paixões. 1 Textos parcialmente reproduzidos em Elisabeth Roudinesco, Em de-fesa da psicanálise, Rio de Janeiro, Zahar, 200. (N.E.) Baixar Livro.