ITINERÁRIO PARA UMA LEITURA DE FREUD Paulo Endo e Edson Sousa Freud não é apenas o pai da psicanálise, mas o fundador de uma formamuito particular e inédita de produzir ciência e conhecimento. Elereinventou o que se sabia sobre a alma humana (a psique), instaurando umaruptura com toda a tradição do pensamento ocidental, a partir de uma obraem que o pensamento racional, consciente e cartesiano perde seu lugarexclusivo e egrégio. Seus estudos sobre a vida inconsciente, realizados aolongo de toda a sua vasta obra, são hoje referência obrigatória para a ciênciae para a filosofia contemporâneas. A sua influência no pensamentoocidental é não só inconteste como não cessa de ampliar seu alcance,dialogando com e influenciando as mais variadas áreas do saber, como afilosofia, as artes, a literatura, a teoria política e as neurociências.Sigmund Freud (1856-1939) nasceu em Freiberg (atual Příbor), naregião da Morávia, hoje parte da República Tcheca, mas àquela época partedo Império Austríaco. Filho de Jacob Freud e de sua terceira esposa, AmáliaFreud, teve nove irmãos – dois do primeiro casamento do pai e sete docasamento entre seu pai e sua mãe. Sigmund era o filho mais velho de oitoirmãos e era sabidamente adorado pela mãe, que o chamava de “meu Sigide ouro”.Em 1860, Jacob Freud, comerciante de lãs, mudou-se com a famíliapara Viena, cidade onde Sigmund Freud residiria até quase o fim da vida,quando teria de se exilar em Londres, fugindo da perseguição nazista. Defamília pobre, formou-se em medicina em 1882. Devido a problemasfinanceiros, decidiu ingressar imediatamente na clínica médica em vez de se dedicar à pesquisa, uma de suas grandes paixões. À medida que seestabelecia como médico, pôde pensar em propor casamento para MarthaBernays. Casaram-se em 1886 e tiveram seis filhos: Mathilde, Martin,Oliver, Ernst, Sophie e Anna.Embora o pai tenha lhe transmitido os valores do judaísmo, Freud nuncaseguiu as tradições e os costumes religiosos; ao mesmo tempo, nuncadeixou de se considerar um judeu. Em algumas ocasiões, atribuiu à suaorigem judaica o fato de resistir aos inúmeros ataques que a psicanálisesofreu desde o início (Freud aproximava a hostilidade sofrida pelo povojudeu ao longo da história às críticas virulentas e repetidas que a clínica e ateoria psicanalíticas receberam). A psicanálise surgiu afirmando que oinconsciente e a sexualidade eram campos inexplorados da alma humana,na qual repousava todo um potencial para uma ciência ainda adormecida.Freud assumia, assim, seu propósito de remar contra a maré.Médico neurologista de formação, foi contra a própria medicina queFreud produziu sua primeira ruptura epistêmica. Isto é: logo percebeu queas pacientes histéricas, afligidas por sintomas físicos sem causa aparente,eram, não raro, tratadas com indiferença médica e negligência no ambientehospitalar. A histeria pedia, portanto, uma nova inteligibilidade, uma novaciência.A característica, muitas vezes espetacular, da sintomatologia daspacientes histéricas de um lado e, de outro, a impotência do saber médicodiante desse fenômeno impressionaram o jovem neurologista. Doentes queapresentavam paralisia de membros, mutismo, dores, angústia, convulsões,contraturas, cegueira etc. desafiavam a racionalidade médica, que nãoencontrava qualquer explicação plausível para tais sintomas e sofrimentos.Freud então se debruçou sobre essas pacientes; porém, desde o princípio buscava as raízes psíquicas do sofrimento histérico e não a explicaçãoneurofisiológica de tal sintomatologia. Procurava dar voz a tais pacientes eouvir o que tinham a dizer, fazendo uso, no início, da hipnose como técnicade cura.Em 1895, é publicado o artigo inaugural da psicanálise: Estudos sobre ahisteria. O texto foi escrito com o médico Josef Breuer (1842-1925), oprimeiro parceiro de pesquisa de Freud. Médico vienense respeitado eerudito, Breuer reconhecera em Freud um jovem brilhante e o ajudoudurante anos, entre 1882 e 1885, inclusive financeiramente. Estudos sobre ahisteria é o único material que escreveram juntos e já evidencia odistanciamento intelectual entre ambos. Enquanto Breuer permaneciaconvicto de que a neurofisiologia daria sustentação ao que ele e Freud jáhaviam observado na clínica da histeria, Freud, de outro modo, já estavaclaramente interessado na raiz sexual das psiconeuroses – caminho queperseguiu a partir do método clínico ao reconhecer em todo sintomapsíquico uma espécie de hieróglifo. Escreveu certa vez: “O paciente temsempre razão. A doença não deve ser para ele um objeto de desprezo, mas,ao contrário, um adversário respeitável, uma parte do seu ser que tem boasrazões de existir e que lhe deve permitir obter ensinamentos preciosos parao futuro”.Em 1899, Freud estava às voltas com os fundamentos da clínica e dateoria psicanalíticas. Não era suficiente postular a existência doinconsciente, uma vez que muitos outros antes dele já haviam se referido aesse aspecto desconhecido e pouco frequentado do psiquismo humano.Tratava-se de explicar seu dinamismo e de estabelecer as bases de umaclínica que tivesse o inconsciente como núcleo. Há o inconsciente, mascomo ter acesso a ele? Foi nesse mesmo ano que Freud finalizou aquele que é, para muitos, otexto mais importante da história da psicanálise: A interpretação dossonhos. A edição, porém, trazia a data de 1900. Sua ambição e intenção aoalterar a data de publicação era a de que esse trabalho figurasse como umdos mais importantes do século XX. De fato, A interpretação dos sonhos éhoje um dos mais relevantes textos escritos no referido século, ao lado de Aética protestante e o “espírito” do capitalismo, de Max Weber, TractatusLogico-Philosophicus, de Ludwig Wittgenstein, e Origens do totalitarismo,de Hannah Arendt.Nesse texto, Freud propõe uma teoria inovadora do aparelho psíquico,bem como os fundamentos da clínica psicanalítica, única capaz de revelaras formações, tramas e expressões do inconsciente, além da sintomatologiae do sofrimento que correspondem a essas dinâmicas. A interpretação dossonhos revela, portanto, uma investigação extensa e absolutamente inéditasobre o inconsciente. Tudo isso a partir da análise e do estudo dos sonhos, amanifestação psíquica inconsciente por excelência. Porém, seria precisoaguardar um trabalho posterior para que fosse abordado o papel central dasexualidade na formação dos sintomas neuróticos.Foi um desdobramento necessário e natural para Freud a publicação, em1905, de Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. A apresentação plenadas suas hipóteses fundamentais sobre o papel da sexualidade na gênese daneurose (já noticiadas nos Estudos sobre a histeria) pôde, enfim, vir à luz,com todo o vigor do pensamento freudiano e livre das amarras de suaherança médica e da aliança com Breuer.A verdadeira descoberta de um método de trabalho capaz de expor oinconsciente, reconhecendo suas determinações e interferindo em seusefeitos, deu-se com o surgimento da clínica psicanalítica. Antes disso, a nascente psicologia experimental alemã, capitaneada por Wilhelm Wundt(1832-1920), esmerava-se em aprofundar exercícios de autoconhecimento eautorreflexão psicológicos denominados de introspeccionismo. A perguntaóbvia elaborada pela psicanálise era: como podia a autoinvestigaçãoesclarecer algo sobre o psiquismo profundo, tendo sido o próprio psiquismoo que ocultou do sujeito suas dores e sofrimentos? Por isso a clínicapsicanalítica propõe-se como uma fala do sujeito endereçada à escuta de umoutro (o psicanalista).A partir de 1905, a clínica psicanalítica se consolidou rapidamente e setornou conhecida em diversos países, despertando o interesse e anecessidade de traduzir os textos de Freud para outras línguas. Em 1910, apsicanálise já ultrapassara as fronteiras da Europa e começava a chegar apaíses distantes como Estados Unidos, Argentina e Brasil. Discípulos deoutras partes do mundo se aproximavam da obra freudiana e do movimentopsicanalítico.Desde muito cedo, Freud e alguns de seus seguidores reconheceram quea teoria psicanalítica tinha um alcance capaz de iluminar dilemas de outrasáreas do conhecimento além daqueles observados na clínica. Um dosprimeiros textos fundamentais nesta direção foi Totem e tabu: algumascorrespondências entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos, de Freud afirmou que Totem e tabu era, ao lado de A interpretação dossonhos, um dos textos mais importantes de sua obra e o considerou umacontribuição para o que ele chamou de psicologia dos povos. De fato, nosgrandes textos sociais e políticos de Freud há indicações explícitas a Toteme tabu como sendo ponto de partida e fundamento de suas teses. É o caso dePsicologia das massas e análise do eu (1921), O futuro de uma ilusão (1927), O mal-estar na cultura (1930) e O homem Moisés e a religiãomonoteísta (1939).O período em que Freud escreveu Totem e tabu foi especialmenteconturbado, sobretudo porque estava sendo gestada a Primeira GuerraMundial, que eclodiria em 1914 e duraria até 1918. Esse episódio históricofoi devastador para Freud e o movimento psicanalítico, esvaziando asfileiras dos pacientes que procuravam a psicanálise e as dos própriospsicanalistas. Importantes discípulos freudianos, como Karl Abraham eSándor Ferenczi, foram convocados para o front, e a atividade clínica deFreud foi praticamente paralisada, o que gerou dissabores extremos à suafamília devido à falta de recursos financeiros. Foi nesse período que Freudescreveu alguns dos textos mais importantes do que se costuma chamar aprimeira fase da psicanálise (1895-1914). Esses trabalhos foram por eleintitulados de “textos sobre a metapsicologia”, ou textos sobre a teoriapsicanalítica.Tais artigos, inicialmente previstos para perfazerem um conjunto dedoze, eram parte de um projeto que deveria sintetizar as principais posiçõesteóricas da ciência psicanalítica até então. Em apenas seis semanas, Freudescreveu os cinco artigos que hoje conhecemos como uma espécie deapanhado denso, inovador e consistente de metapsicologia. São eles:“Pulsões e destinos da pulsão”, “O inconsciente”, “O recalque”, “Luto emelancolia” e “Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos”. Oartigo “Para introduzir o narcisismo”, escrito em 1914, junta-se também aesse grupo de textos. Dos doze artigos previstos, cinco não forampublicados, apesar de Freud tê-los concluído: ao que tudo indica, ele osdestruiu. (Em 1983, a psicanalista e pesquisadora Ilse Grubrich-Smitisencontrou um manuscrito de Freud, com um bilhete anexado ao discípulo e amigo Sándor Ferenczi, em que identificava “Visão geral das neuroses detransferência” como o 12o ensaio da série sobre metapsicologia. O artigofoi publicado em 1985 e é o sétimo e último texto de Freud sobremetapsicologia que chegou até nós.)Após o final da Primeira Guerra e alguns anos depois de ter se esmeradoem reapresentar a psicanálise em seus fundamentos, Freud publica, em1920, um artigo avassalador intitulado Além do princípio de prazer. Textorevolucionário, admirável e ao mesmo tempo mal aceito e mal digerido atéhoje por muitos psicanalistas, desconfortáveis com a proposição de umapulsão (ou impulso, conforme se preferiu na presente tradução) de morteautônoma e independente das pulsões de vida. Nesse artigo, Freud refaz osalicerces da teoria psicanalítica ao propor novos fundamentos para a teoriadas pulsões. A primeira teoria das pulsões apresentava duas energiaspsíquicas como sendo a base da dinâmica do psiquismo: as pulsões do eu eas pulsões de objeto. As pulsões do eu ocupam-se em dar ao eu proteção,guarida e satisfação das necessidades elementares (fome, sede,sobrevivência, proteção contra intempéries etc.), e as pulsões de objetobuscam a associação erótica e sexual com outrem.Já em Além do princípio de prazer, Freud avança no estudo dosmovimentos psíquicos das pulsões. Mobilizado pelo tratamento dosneuróticos de guerra que povoavam as cidades europeias e por alguns deseus discípulos que, convocados, atenderam psicanaliticamente nas frentesde batalha, Freud reencontrou o estímulo para repensar a própria naturezada repetição do sintoma neurótico em sua articulação com o trauma. Surge oconceito de pulsão de morte: uma energia que ataca o psiquismo e podeparalisar o trabalho do eu, mobilizando-o em direção ao desejo de não maisdesejar, que resultaria na morte psíquica. É provavelmente a primeira vez em que se postula no psiquismo uma tendência e uma força capazes deprovocar a paralisia, a dor e a destruição.Uma das principais consequências dessa reviravolta é a segunda teoriapulsional, que pode ser reencontrada na nova teoria do aparelho psíquico,conhecida como segunda tópica, ou segunda teoria do aparelho psíquico(ego, id e superego, ou eu, isso e supereu), apresentada no texto O eu e o id,publicado em 1923. Freud propõe uma instância psíquica denominadasupereu. Essa instância, ao mesmo tempo em que possibilita uma aliançapsíquica com a cultura, a civilização, os pactos sociais, as leis e as regras, étambém responsável pela culpa, pelas frustrações e pelas exigências que osujeito impõe a si mesmo, muitas delas inalcançáveis. Daí o mal-estar queacompanha todo sujeito e que não pode ser inteiramente superado.Em 1938, foi redigido o texto Compêndio da psicanálise, que seriapublicado postumamente em 1940. Freud pretendia escrever uma grande síntese de sua doutrina, mas faleceu em setembro de 1939, antes de terminá-la. O Compêndio permanece, então, como uma espécie de inacabado testamento teórico freudiano, indicando a incompletude da própria teoriapsicanalítica que, desde então, segue se modificando, se refazendo e seaprofundando.Curioso talvez que o último grande texto de Freud, publicado em 1939,tenha sido O homem Moisés e a religião monoteísta, trabalho potente efundador que reexamina teses historiográficas basilares da cultura judaica eda religião monoteísta a partir do arsenal psicanalítico. Essa obra mereceucomentários de grandes pensadores contemporâneos como Josef Yerushalmi, Edward Said e Jacques Derrida, que continuaram a enriquecê-la, desvelando não só a herança judaica muito particular de Freud, por ele afirmada e ao mesmo tempo combatida, mas também o alcance da psicanálise no debate sobre os fundamentos da historiografia do judaísmo,determinante da constituição identitária de pessoas, povos e nações.Esta breve anotação introdutória é certamente insuficiente, pois muitoainda se poderia falar de Freud. Contudo, esperamos haver, ao menos,despertado a curiosidade no leitor, que passará a ter em mãos, com estacoleção, uma nova e instigante série de textos de Freud, com tradução diretado alemão e revisão técnica de destacados psicanalistas e estudiosos dapsicanálise no Brasil.Ao leitor, só nos resta desejar boa e transformadora viagem. Baixar Livro.