Elisabeth Roudinesco lisabeth Roudinesco A família em desordem Tradução: André Telles Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro Título original: La Famille en désordre Tradução autorizada da primeira edição francesa publicada em 2002 por Arthème Fayard, de Paris, França Copyright © 2002 Librairie Arthème Fayard Copyright © 2003 da edição brasileira: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 2240-0226 / fax: (21) 2262-5123 e-mail: jze@zahar.com.br site: www.zahar.com.br Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Capa: Sérgio Campante CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Roudinesco, Elisabeth, 1944- R765f A família em desordem / Elisabeth Roudinesco; tradução André Telles. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003 Tradução de: La famille en désordre ISBN 85-7110-700-9 1. Família – Saúde mental. 2. Família – Aspectos psicológicos. 3. Família – Aspectos sociológicos. 4. Psicologia social. I. Título. CDD 616.8917 03-0138 CDU 159.964.2:316.356.2Prefácio Os recentes debates sobre o "pacto de solidariedade" (pacs)1trouxeram à luz uma situação inéditaque nem os antropólogos, nem os psicanalistas, nem os filósofos, nem os sociólogos, nem oshistoriadores tinham realmente imaginado: afinal, por que homossexuais, homens e mulheres,manifestam o desejo de se normalizar, e por que reivindicam o direito ao casamento, à adoção e àprocriação medicamente assistida? O que aconteceu então nos últimos trinta anos na sociedadeocidental para que sujeitos qualificados alternadamente de sodomitas, invertidos, perversos oudoentes mentais tenham desejado não apenas serem reconhecidos como cidadãos integrais, masadotarem a ordem familiar que tanto contribuiu para seu infortúnio?Por que esse desejo de família, inclusive considerando que a homossexualidade sempre foirepelida da instituição do casamento e da filiação, a ponto de se tornar, ao longo dos séculos, osignificante maior de um princípio de exclusão?Em 1973, a revista Recherches publicava um número especial intitulado "Três bilhões deperversos". Contra os preconceitos de todos os tipos, filósofos, escritores e psicanalistasreivindicavam para os homossexuais um direito à diferença, sublinhando que a "maquinaçãohomossexual entra em ruptura com toda forma de adequação possível a um pólo parental dereferência… Digamos simplesmente, acrescentavam, que dentre alguns outros o homossexual podeser, pode se tornar o lugar de uma ruptura libidinal importante na sociedade, um dos pontos deemergência da energia revolucionária desejante cujo militantismo clássico permanece desconectado.Não percamos de vista com isso que também existe uma loucura de hospício infinitamente infeliz, ouuma homossexualidade infinitamente vergonhosa e miserável."2Os signatários se pretendiam herdeiros da longa história da raça maldita, magnificamenteencarnada a seus olhos por Oscar Wilde, Arthur Rimbaud, Marcel Proust. A singularidade de umdestino, mesmo o da anormalidade, lhes parecia preferível ao mergulho na monotonia de uma vidaacadêmica e sem graça. Invocavam "nossos amantes berberes" contra toda forma de opressão —familiar, colonial, sexual.A família era então contestada, rejeitada, declarada funesta ao desabrochar do desejo e daliberdade sexual. Assimilada a uma instância colonizadora, ela parecia carregar todos os vícios deuma opressão patriarcal, que proibia às mulheres o gozo de seus corpos, às crianças o gozo de umauto-erotismo sem entraves, aos marginais o direito de desenvolver suas fantasias e suas práticasperversas. Édipo era então, com Freud, Melanie Klein e Lacan, considerado cúmplice de umcapitalismo burguês do qual era preciso se livrar sob pena de recair no jugo do conservadorismo. Oantiedipianismo causava furor,3 apoiando-se aliás na grande tradição dos utopistas ou libertários que,1 O pacto civil de solidariedade entrou em vigor na França com uma lei votada em 15 de novembro de 1999. Ele permitea casais (homossexuais ou heterosexuais) legalizarem sua união por um contrato específico, mas não supõe o direito àadoção de crianças ou à procriação medicamente assistida.2 Recherches, mar 1973. Entre os participantes estavam os nomes de Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jean Genet, FélixGuattari etc.3 O antiedipianismo se apoiava na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari, L ́Anti-Edipe Capitalisme et schizophrénie,Paris, Minuit, 1972. A esse respeito remetemos ao capítulo 7 do presente volume: "O poder das mães". de Platão a Campanella, haviam sonhado com uma possível abolição da família.4Hoje em dia tais declarações são julgadas obsoletas pelos interessados, e mesmo hostis à novamoral civilizada em busca de norma e de um familiarismo redescoberto. Pois tudo indica que oacesso tão esperado a uma justa igualdade dos direitos em matéria de práticas sexuais — para asmulheres, para as crianças, para os homossexuais — tenha tido como contrapartida não aproclamação de uma ruptura com a ordem estabelecida, mas uma forte vontade de integração a umanorma outrora infame e fonte de perseguição.Ao mesmo tempo, nunca o sexo foi tão estudado, codificado, medicalizado, exibido, avaliado,periciado. Os últimos levantamentos e laudos contemporâneos sobre a família ou sobre a situaçãodas famílias têm como corolário novos estudos dos sexológicos sobre os casais e os acasalamentosmais requintaos. As prosaicas descrições das diversas práticas sesuais florescem em lugar e noespaço de um discurso sobre o sexo rebelde ou íntimo. Do mesmo modo vêm saciar o formidávelinteresse que nossa época dedica atualmente a uma forma inédita de pornografia, que podemosqualificar de putitana, na medida em que fornece uma classificação fria, minuciosa e quase botânicadas diferentes exibições do sexo: na literatura, na pintura e na arte cinematográfica.Associado a esse fenômeno, o grande desejo de normatividade das antigas minoriasperseguidas semeia problemas na sociedade. Todos temem, com efeito, que não passe do sinal deuma decadência dos valores tradicionais da família, escola, nação, pátria e, sobretudo, dapaternidade, do pai, da lei do pai e da autoridade sob todas as formas. Como conseqüência, não émais a contestação do modelo familiar que incomoda os conservadores de todos os lados, mas, aocontrário, a vontade de a ele se submeter. Excluídos da família, os homossexuais de outrora eram aomenos reconhecíveis, identificáveis, marcados, estigmatizados. Integrados, tornam-se simplesmentemais perigosos, uma vez que menos visíveis. Tudo se passa como se fosse preciso impedir-lhes oinefável, o idêntico ou a diferença abolida. Daí esse terror de um fim do pai, de um naufrágio daautoridade ou de um poder ilimitado do materno, que invadiu o corpo social no mesmo momento emque a clonagem parece ameaçar o homem com uma perda de identidade.Sem ordem paterna, sem lei simbólica, a família mutilada das sociedades pós-industriais seria,dizem, pervertida em sua própria função de célula de base da sociedade. Ela se entregaria aohedonismo, à ideologia do "sem tabu". Monoparental, homoparental, recomposta, desconstruída,clonada, gerada artificialmente, atacada do interior por pretensos negadores da diferença entre ossexos, ela não seria mais capaz de transmitir seus próprios valores. Como conseqüência, o Ocidentejudaico-cristão e, pior ainda, a democracia republicana estariam ameaçados de decomposição. Daí apermanente evocação das catástrofes presentes e vindouras: os professores apunhalados, as criançasestupradoras e estupradas, os carros incendiados, as periferias entregues ao crime e à ausência dequalquer autoridade.Nossa época gera assim, a propósito da família, um distúrbio profundo, do qual o desejohomossexual, transformado em desejo de normatividade, seria, a meu ver, um dos eveladores, nomesmo momento em que os poderes do sexo parecem nunca ter sido tão estendidos, no seio de umaeconomia liberal que tende a reduzir cada vez mais o homem a uma mercadoria.Dediquei este ensaio a penetrar o segredo desses distúrbios de família.Baseada durante séculos na soberania divina do pai, a família ocidental foi desafiada, no séculoXVIII, pela irrupção do feminino. Foi então que se transformou, com o advento da burguesia, emuma célula biológica que concedia lugar central à maternidade. A nova ordem familiar conseguiurepresar a ameaça que esta irrupção do feminino representava à custa do questionamento do antigo4"As mulheres de nossos guerreiros, escreve Platão, serão todas comuns a muitos: nenhuma dentre elas habitará em particular comnenhum dentre eles. Do mesmo modo, os filhos serão comuns e os pais não conhecerão seus filhos, nem estes a seus pais." (LaRepublique, Paris, Gallimard, col. Bibliothèque de La Pléiade, 1950, p.415.) [Ed. bras.: A República, Rio de Janeiro, Ediouro, 1994] poder patriarcal. A partir do declínio deste, cuja testemunha e principal teórico foi Freud ao revisitara história de Édipo e de Hamlet, esboçou-se um processo de emancipação que permitiu às mulheresafirmar sua diferença, às crianças serem olhadas como sujeitos e aos "invertidos" se normalizarem.Esse movimento gerou uma angústia e uma desordem específicas, ligadas ao terror da abolição dadiferença dos sexos, com a perspectiva de uma dissolução da família no fim do caminho.Nessas condições, estará o pai condenado a não ser mais que uma função simbólica? Deve elese obstinar a vestir novamente os ouropéis do patriarca de outrora, como queriam os conservadores?Deve ele, ao contrário, se transformar em educador benevolente, como desejavam os modernistas?Se o pai não é mais o pai, se as mulheres dominam inteiramente a procriação e se os homossexuaistêm o poder de assumir um lugar no processo da filiação, se a liberdade sexual é ao mesmo tempoilimitada e codificada, transgressiva e normalizada, pode-se dizer por isso que a existência da famíliaestá ameaçada? Estaremos assistindo ao nascimento de uma onipotência do "materno" que viriadefinitivamente aniquilar o antigo poder do masculino e do "paterno" em beneficio de uma sociedadecomunitarista ameaçada por dois grandes espectros: o culto de si próprio e a clonagem?Eis as questões levantadas por este livro.