Observações sobre a teoria do significante em Jacques Lacan1 por Elisabeth ROUDINESCO Os linguistas gostariam de se reservar o privilégio de falar dalinguagem… Todo uso da linguagem se desloca na metáfora.(Jacques Lacan, Seminário inédito, março de 1971).2 O “ESQUECIMENTO” DOS LINGUISTAS Em um seminário recente, Jacques Lacan declarou que seu ensino se dava “emtorno” do desenvolvimento da linguística. Ao prestar uma criativa homenagem àJakobson, ele declarou ainda, concedendo seus privilégios ao linguista: “O dizer não fazparte do campo da linguística. Eu faço ‘linguisteria’”. As “ressonâncias” do dizerdefiniriam assim o lugar da interpretação analítica.3 1 Publicado originalmente na revista La pensée (n. 162/1972) e republicado com alterações no livro Undiscours au réel : théorie de l’inconscient et politique de la psychanalyse (1973). [N.T]2 Trata-se da aula de 10 de fevereiro de 1971 (O seminário: livro 18: de um discurso que não fosse osemblante. A versão brasileira registra: “Os linguistas, os linguistas universitários, pretenderiam, emsíntese, reservar-se o privilégio de falar da linguagem […]. Mas é curioso que os linguistas não vejam quetodo uso da linguagem, seja ele qual for, desloca-se na metáfora.” (LACAN, [1971] 2009, p. 39 e 43).3 Cf. a aula de 19 de dezembro de 1972, de O Seminário: livro 20: mais, ainda. Nela, Lacan afirma: “seconsideramos tudo que, pela definição da linguagem, se segue quanto à fundação do sujeito, tão renovada,tão subvertida por Freud, que é lá que se garante tudo que de sua boca se afirmou como o inconsciente,então será preciso, para deixar a Jakobson seu domínio reservado, forjar alguma outra palavra. Chamarei 2A teoria freudiana fala da linguagem. Fala do Sentido, do Desejo. Como ela faladisso? Usando de empréstimo, roubando palavras e conceitos de diferentes domínios dosaber de sua época. Ainda não tendo nascido a linguística (ao menos em seu sentidomoderno), Freud aborda a questão da linguagem nos termos da filologia, da gramática,da arqueologia (história das escritas antigas). Instaurando a cena do Inconsciente no lugarde todo discurso, Freud deixa a própria linguagem falar. Sonho, Desejo, deixar dizer… Odizer é aquilo que fica esquecido detrás do que é dito.4 Deixando o sonho dizer, ele descobre que o desejo tende a se realizar ali, à meia-palavra, sem que absolutamente se saiba disso. Descobre que um “pensamento” é possível sem o “eu penso”. E mostra que o desejo não é nem o instinto, nem a vontade, nem anecessidade, que sua natureza é inconsciente e que ele se encontra em toda parte: lá ondeisso fala, lá onde isso sofre,5no sintoma e no lapso, no sonho e nas palavras. O desejo éinconsciente, ele “trabalha” o sonho e o sonho realiza esse trabalho do desejo. Pelaprimeira vez, Freud abre o campo do inconsciente ao conhecimento, dando-lhe um estatuto teórico. Ao deixar o sonho e o desejo dizerem, ele obriga todo discurso a fundar-se em seu “delírio”, a deslocar os limites de uma razão razoável [raison raisonnante]. Deixando falar a história dos mitos, ou a gramática ou a filologia, Freud as fazdizer o que elas dizem sem saber, não o que aí se oculta, mas sim o que se diz. Ele inaugurauma nova prática do discurso científico: este já não é mais tomado como modelo, mascomo discurso no qual fala o desejo. Sem dúvida, Freud interroga a biologia, a sociologiae as diversas ciências constituídas de seu tempo, sem dúvida, empresta conceitos delas,mas, antes de tudo, põe em jogo o trabalho do sonho, o trabalho do deslocamento e dodesejo, a ação de uma metáfora. Ao interrogar tais conceitos, Freud os submete à provade uma verdade, ele os distorce, os traduz e os transforma, ele lhes impõe essa experiênciado Sentido, sempre presente, sempre em outro lugar. A teoria freudiana não é nem uma a isto de linguisteria. […] Meu dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem não é docampo da linguística.” (LACAN, [1972] 1985, p. 25). [N.T.]4 Trata-se de um enunciado acrescentado na segunda versão. Esse enunciado remete a uma frase dita porLacan em mais de uma ocasião, incluindo na sua homenagem a Jakobson: “Que se diga fica esquecidodetrás do que se diz no que se ouve” [« Qu’on dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce quis’entend »]. [N.T.]5 Referência a um enunciado localizável nos Escritos: “Fez-se questão apenas de repetir, segundo Freud, odito de sua descoberta: isso fala […] ali onde isso sofre [là où ça souffre]” (LACAN, [1955/1966] 1998,p. 414 [“A coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise”]). O leitor ainda encontrará umafórmula aproximada na lição de 8 de maio de 1973: “Essa hiância inscrita no estatuto mesmo do gozoenquanto diz-mansão do corpo no ser falante, aí está o que torna a brotar com Freud por esse teste – nãopreciso dizer mais nada – que é a existência da fala. Aonde isso fala, isso goza [Là où ça parle ça jouit].”(LACAN, [1973] 1985, p. 156). [N.T.] Baixar Livro.